Um tour por Padova (Pádua)
Apesar de já estarmos em Padova (Pádua, em português) desde sexta-feira, no sábado e domingo fizemos os passeios em Veneza. Então, hoje planejamos o dia para conhecer Padova.
Tomamos café no hotel e fomos de carro às 9 h ao Departamento de Engenharia da Informação, onde eu tinha marcado uma visita ao Laboratório de Eletrônica de Potência com o professor Giorgio Spiazzi. Combinei a visita com o professor Spiazzi durante último Congresso Brasileiro de Eletrônica de Potência (COBEP) que participamos em Florianópolis há 6 semanas. Já conhecia ele e o seu colega professor Simone Buso de outros eventos científicos, além de ter estudado alguns artigos de autoria deles que salvaram o meu mestrado. Na visita ao laboratório pude ver os temas que eles e os seus doutorandos têm trabalhado e conversar sobre assuntos recentes de eletrônica de potência.
A convite dos professores Spiazzi e Buso, fomos almoçar em um restaurante/bar de comida típica da região de Calábria, situado na praça da Porta Portello. Pedimos a sugestão do dia: um excelente polpetone ao sugo com queijo defumado. Depois do almoço, nos despedimos dos professores Spiazzi (de azul) e Buso (de preto) e fomos caminhando conhecer a cidade.
Depois disso, seguimos para o Palazzo della Ragione, que divide a Piazza dei Fruti e a Piazza delle Erbe. Quando chegamos, estava tendo feira nas duas praças. Essas praças, historicamente, tiveram finalidade comercial, enquanto a Piazza dei Signori tinha a finalidade de realizar eventos e competições. O Palazzo della Ragione é patrimônio da Unesco, possuindo partes construídas entre 900 e 700 anos atrás. Tem um mercado público no térreo e um grande salão de eventos no andar superior. Hoje é segunda-feira, e o único dia que o Palazzo fecha é segunda-feira. Assim, não pudemos visitar o salão.
Próximo dessas praças fica o Palazzo Bo, local onde iniciou a Universidade de Padova. Chegamos às 13:25 e vimos que haveria um tour guiado em inglês às 13:30. Compramos prontamente o ingresso e aguardamos a guia Elisa. Como somente nós dois faríamos o tour, sugerimos que o tour fosse em italiano, o que foi prontamente aceito pela guia. Conhecemos um pouco a história da universidade e as principais salas do palácio. A Universidade de Padova tem 65000 estudantes e foi criada em 1222, sendo a 2ª criada na Itália e 5ª no mundo. Foi fundada por dissidentes da Universidade de Bologna que buscavam maior liberdade acadêmica para estudar e pesquisar sem serem boicotados ou tidos como hereges. Em 1405, Padova foi conquistada pela República Sereníssima de Veneza, e a Universidade foi mantida com os mesmos princípios filosóficos de sua fundação. Em torno de 1500, a República de Veneza investiu na Universidade, comprando edifícios de uma quadra do centro da cidade e construindo o Palazzo Bo no local. O nome do palácio vem de boi, pois um dos prédios do local era um açougue. A cabeça de um boi acabou se tornando um símbolo da Universidade. Além disso, vimos no palácio vários leões de São Marcos, símbolo da República de Veneza.
Diferentemente da Universidade de Bologna, a Universidade de Padova sempre foi aberta para estudantes de qualquer país e qualquer religião. O primeiro curso a ser criado foi Direito, e depois veio Medicina. Galileu Galilei foi professor da Universidade durante 18 anos, ensinando Matemática e Astronomia.
Uma particularidade da Universidade, que durou até o final dos anos 1700, é que a administração era realizada pelos alunos, e não por professores. O reitor e os conselheiros eram alunos, e eles que contratavam os professores. As paredes do Palazzo Bo estão cheias com os nomes e proveniência (país) dos reitores e conselheiros da Universidade, desde a construção do palácio (1493) até uns 150 anos depois. Em torno de 1650, pararam de colocar os nomes, pois não havia mais espaço para tanta gente. A principal sala de eventos do Palazzo Bo é a sala de Aula Magna, onde são feitas formaturas de doutorado ou formaturas de honra. A guia nos explicou que Galileu Galileu, por ser um professor importante da Universidade, dava algumas de suas aulas nessa sala, de pé sobre um púlpito de madeira. O mesmo púlpito de madeira e uma vértebra da coluna de Galileu Galilei, roubada do seu túmulo em Firenze e depois doada pelo ladrão à Universidade, estão expostos na antessala da sala de Aula Magna.
Depois disso, fomos conhecer o anfiteatro onde eram feitas dissecações de cadáveres para o estudo de anatomia. O anfiteatro é bem pequeno, aparentemente com menos de 10 metros de largura, e sem iluminação natural. As aulas eram feitas somente 1 vez por ano durante poucas semanas mais frias de inverno, para reduzir problemas de mau cheiro, já que não havia nenhum produto para conservar melhor os corpos. Os cadáveres eram pessoas que tinham sido condenadas à morte em outras cidades, para que não fossem conhecidos pelos alunos. As aulas eram conduzidas com o professor sentado em uma cadeira e lendo instruções do livro, e os alunos fazendo os procedimentos. Para que o ambiente da aula não fossem muito ruim devido ao mau cheiro e pouca iluminação de velas, existia uma pequena orquestra que reproduzia músicas para criar uma trilha sonora no ambiente.
Depois dessa sala, conhecemos as salas onde os atuais alunos de medicina e direito fazem defesa de seus trabalhos de conclusão de curso.
Por fim, vimos a estátua da primeira mulher que ganhou diploma universitário na história: Elena Piscopia, que se formou em filosofia em 1678. Naquela época, as mulheres não podiam cursar a Universidade. Sendo de familia nobre, Elena foi orientada por professores particulares, estudou em casa e fez uma pesquisa na área de teologia. Defendeu sua pesquisa para uma banca de professores da Universidade de Pádova, e a concederam o título, não de Teologia, mas sim de Filosofia, pois consideraram que filosofia seria um curso mais adequado para mulheres. Apesar da formatura de Elena, a admissão de alunos mulheres só começou no século XIX. À propósito, ao sairmos do Palazzo Bo, vimos a entrada do gabinete da Reitora, que é atualmente uma mulher.
Na mesma praça do Palazzo Bo fomos conhecer uma antiga cafeteria da cidade, o Caffè Pedrocchi, datada de 1831. A cafeteria serve inclusive almoço e jantar, e é muito bonita. Quando o antigo dono faleceu sem deixar herdeiros, a cafeteria passou para a comunidade, e atualmente é administrada por uma associação. Experimentei o café especialidade da casa, que é um café misturado com um creme de menta. Comemos também um bolo de chocolate. Foi tudo excelente.
Após o café, fomos caminhando até a Basílica de Santo Antônio, que é chamada em Padova somente como Basílica del Santo. Seguidor de São Francisco, Santo Antônio nasceu em Lisboa em 1195 e faleceu em Padova em 1231. Os portugueses chamam de Santo Antônio de Lisboa, enquanto os italianos chamam de Santo Antonio di Padova. A basilica de Padova é muito imponente. Pudemos visitar o interior e ver o túmulo, restos mortais e pertences de Santo Antonio.
Perto da basilica, fomos até o Ortobotânico da Universidade de Padova, que é primeiro jardim botânico utilizado para estudos e aberto ao público. Infelizmente, não foi possível entrar, pois não abre na segunda-feira.
Caminhando mais 2 km, fomos até o observatório-museu La Specola, da Universidade de Padova, onde Galileu Galilei fazia as observações astronômicas com seu telescópio. Somente o prédio do departamento de astronomia estava aberto, mas não pudemos entrar no museu, pois abre somente nos finais de semana.
Retornamos caminhando 2,5 km até a praça da Porta Portello, onde comemos um panini no mesmo restaurante em que almoçamos. Saindo de Padova pelas 18:30, chegamos no hotel em Bologna pelas 20:00.
Agora, algumas reflexões sobre o passeio de hoje. Percebemos que os preços em restaurantes de Padova são menores do que das outras cidades que visitamos, sendo primo piatto de 5 a 8 euros, e secondo piatto de 10 a 15 euros. Nossa guia no Palazzo Bo nos falou que a cidade é voltada para a Universidade, tendo metade da população de estudantes. Durante a pandemia a cidade ficou deserta. Foi o que percebemos nas ruas, onde encontramos muitos jovens, mais do que notamos nas outras cidades. Neste aspecto, é parecida com Santa Maria. Percebemos também que não é uma cidade muito turística, mas mesmo assim é uma cidade muito interessante para se conhecer, especialmente pela história de sua Universidade.




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